sábado, 7 de Novembro de 2009

A inventiva de Patrícia Portela, em exibição

Há mais de uma década que a encenadora Patrícia Portela nos brinda em palco com explosões multidisciplinares, inventivas, irreverentes, inteligentes e singulares. odília ou a história das musas confusas do cérebro é a primeira peça de teatro infanto-juvenil da autora, estreada no Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, em Outubro 2006, no Festival Temps d´Images, com visitas a outros pontos do país. O espectáculo volta a palco, no Teatro Aveirense, a 10 e 11 de Novembro, às 10h30 e às 14h30, inserido no Ciclo Arte e Novas Tecnologias. Ver mais, aqui.

«A solidão medita, e a meditação cria», disse António Feliciano Castilho. Mas donde vêm as ideias que dão origem à criação? Patrícia Portela explica aos mais novos como tudo acontece no silêncio do cérebro, através da história de odília, musa solitária e desempregada e que, cansada de Esperar, resolve Acontecer. Imperdível, o pequeno livro editado pela Editorial Caminho instiga os cérebros de todas as idades a uma viagem aos seus corredores labirínticos, misteriosos e fascinantes. E assim se solta o pensamento que, depois de aprender a Acontecer, nunca mais será o mesmo.

Diz-nos o texto, que o tempo passa sempre, e nós, como o tempo, também passamos, mesmo que disso não tenhamos consciência, mesmo que o nosso pensamento, silenciado, não no-lo diga. «E decidirmos deixar de passar não é nada fácil porque há imensa coisa que tem de se destemporar para se deixar de passar: deixar de crescer, deixar de conhecer, deixar de questionar, deixar de amuar, deixar de teimar, deixar de hesitar, deixar de duvidar, deixar de repetir, deixar de parar, deixar de esperar

E «esperar não é nada fácil, é como passar, como se não se passasse nada, é como uma pausa numa música, um intervalo quando tudo o resto continua, como se nos atrasássemos e acontecêssemos sem nós, como se nos desligássemos. É como dormir. Umas vezes espera-se porque se quer, outras é sem querer, mas mesmo que ninguém fale ou lembre disso, mesmo quando se fazem outras coisas, muitas vezes espera-se.
E esperar é como acontecer. Umas vezes faz pena, outras não, outras nem se dá por isso e só muito mais tarde é que percebemos que esperámos, e quando não se sabe o que se passou entre duas coisas que acontecem pergunta-se: Esperei ou aconteci?», questiona-nos, fecundamente, o texto para nos mostrar que «estamos num tempo com dois tempos, assim como no futebol, no futebol em directo, estamos frente à televisão, e ouvimos GooooooOOOOOOOooooooollLLlllooooOOOOooo…mesmo antes de ver a bola entrar na baliza (…) neste tempo entre dois tempos, as horas param. Só as palavras se mexem.».

Odília, a musa confusa do cérebro, e Penélope esperam, «as duas, frente ao mar». Odília espera ser inspirada (odília, com minúscula, denomina as musas que «em vez de andarem a inspirar procuram constantemente alguém que as inspire» e «quando se cansam de esperar que a inspiração lhes apareça, partem à procura»), e Penélope espera Ulisses.
A partir daqui, é claro o incentivo do texto: munida da coragem da partida, Odília vira costas ao mar e parte, sempre seguida por Penélope que lhe vai «desemaranhar os fios do vestido», as duas «lado a lado, sombra uma da outra, «à procura do labirinto, à procura do fio de Ariana». Mas Odília entra «imediatamente em pânico». Espera-a o labirinto do percurso, que é o que sempre nos espera quando resolvemos seguir em frente: «à sua frente encontrava-se um labirinto infinito de meadas desfeitas, fios brancos espalhados por todas as ruas, todos os cantos e todas as praças do mundo». A persistência de Odília, a «primeira musa emigrante do mundo» leva-a ao encontro do poeta, pois «foram eles que fizeram as musas para que as musas os inspirassem a escrever um Livro que imaginasse deuses que criassem o mundo». E assim se ensina para o poder incomensurável do cérebro.

Repleto de ilustrações da própria autora, o texto corre vertiginoso, parando a brevíssimos espaços e acontecimentos do quotidiano, em soluços de tempo, onde o cérebro Espera antes de Acontecer, já acontecendo. Um texto para se ler, primeiro, de um fôlego, e reler, depois, escutando os momentos da Espera onde se formam as ideias que desenham as acções que temos.

Odília ou a história das musas confusas do cérebro, Patrícia Portela; Editorial Caminho; Lisboa, 2007

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Quem é Peter Maynard?

A PHALA online tem editado o meu texto que serviu de base à apresentação da Trilogia maynardiana, na FNAC do Chiado, a 29 de Junho de 2009, com o título «Peter Maynard – Beretta e consciência»*.


Quem é Peter Maynard, essa personagem que, segundo Matt West, «desfaz mitos com o mesmo escrúpulo com que dispara»? Que personagem é esta, «figura indefinida e fugidia», segundo Dinis Machado, que sabe tudo acerca do leitor, que joga com ele, que o manipula, o agrilhoa num inaudito fascínio, que se dá à perversidade de ajeitar a gravata ao espelho, falar para a cara que vê ao espelho e não revelar essa cara ao leitor, que cata, em vão, qualquer indício da sua aparência física? Peter Maynard é voz, postura, atenção, método, intuição, acção, rigor, ética, sedução, humor, crítica, solidão, sonho e consciência.
(Continuar a ler n' A Phala)

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

À espera de Blackpot

Prestes a chegar às livrarias, Blackpot é o original de Dennis McShade (Dinis Machado) que todos esperam. Em pré-publicação, a Orgia Literária editou o capítulo 19, no passado dia 30 de Outubro, um exclusivo que agradeço à Assírio & Alvim e ao José Xavier Ezequiel, grande mentor da edição deste inédito, mas também da reedição da trilogia maynardiana.

Capítulo 19

Ornatto massajou a perna durante alguns minutos e depois foi sentar-se no sofá, em frente da televisão. Ficou a olhar para o ecrã do aparelho desligado.

Subitamente, lembrou-se que ainda não tinha almoçado. Levantou-se, dirigiu-se à cozinha e fritou ovos com bacon. A ideia de Victor andava-lhe na cabeça. Matar Armador. Franziu a testa, pensando em como as coisas se complicavam.
Comeu os ovos com bacon com um certo apetite. Quando acabou, foi aquecer o café do balão e bebeu três chávenas. Deitou-se no sofá e esticou a perna. Ainda acabaria por ser amputado. Fechou os olhos e esfregou as pálpebras.

Seria bom que Gulliver telefonasse. Queria falar com Gulliver por causa da ideia de Victor. Lembrou-se de Armador. De como era um excelente jogador de xadrez. Sabia que ele jogava xadrez muitas vezes com Gulliver. Gulliver também era um bom jogador de xadrez. Ornatto nunca percebera como funcionava o xadrez. Preferia ler Samuel Beckett e revistas de banda desenhada. Mas ultimamente procurava apenas o silêncio. Era assim que passava o tempo.

Levantou-se a coxear um pouco e foi limpar a arma. Deixou-a impecável. Tomou comprimidos para a dor na perna. Sentou-se ao pé da mesa do telefone, à espera da chamada de Gulliver. Não sabia o que pensar da ideia de Victor: matar Armador.

Ficou à espera, olhando fixamente o ecrã do televisor desligado.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Zeca Afonso por Viriato Teles


Acabado de chegar às livrarias. Ver mais aqui
Lançamento no Museu da República e Resistência, no dia 17 de Novembro, às19h
Brevemente, o meu texto crítico
Zeca na literatura infantil: Zeca Afonso - Nome de Liberdade

Saudosa tertúlia

Imagine-se o leitor no centro de uma tertúlia onde estão Amália Rodrigues, Baden Powell, Chico Buarque, Atahualpa Yupanqui, Peter Seeger, Sting, Léo Ferre, Juliette Greco, Marcel Marceau e Mário Viegas. Deixe-se o mero exercício de imaginação, porque pode o leitor experimentá-la, bastando tão só aceitar o convite do estratega do encontro: o jornalista Viriato Teles. E o encontro está marcado para Bocas de Cena, local de achamento também do prazer incomensurável da leitura.

«São dez as entrevistas, estas dez e não quaisquer outras, porque o autor ao seleccioná-las quis dar-lhes um fio de coerência interventiva: aquela que, assumidamente, os entrevistados sempre souberam viver», diz Edite Soeiro no Prefácio. «Como é que ele conseguiu?», questionou Raul Solnado, referindo-se à «natureza inatingível dos entrevistados», numa pergunta de Retórica, pois a genialidade não se explica, comprova-se nas 135 páginas que inscrevem a eternidade.

Verdadeiro mestre de apresentações, Viriato Teles elabora, antecedendo as entrevistas, a descrição das personalidades, define-as biograficamente e expõem-nas no efeito que, presencialmente, lhe provocam . Também no decorrer das entrevistas, para além dos assuntos tratados, o jornalista faz o retrato dos entrevistados, retratos humanos totais, com alegrias e desencantos, projectos e nostalgias, ganhos e perdas. Como o autor já nos habituou, a prosa é quente, reveladora e cúmplice do leitor, como se também este fosse conhecido de Viriato Teles; mais um mistério só possível quando se tem a intuição de um grande escritor. «O homem que agora se senta à minha frente está destinado a vencer a morte. Fala muito e em ritmo acelerado, mas nunca fala por falar. Os olhos não param quietos, mesmo quando se dirige a nós», escreve o jornalista sobre a entrevista a Mário Viegas, feita em Fevereiro de 1992, com o título «A vida em alta velocidade».

Mário Viegas morreria no dia das mentiras, a 1 de Abril de 1996, com 47 anos, «deixando aparvalhados os amigos», deixando-nos a todos uma imensa saudade. Ler esta entrevista é matar um pouco essa saudade, matando o sentimento de tristeza e desamparo que nos ficou com a partida daquele homem intenso e insubmisso.

Se aquela entrevista é a última do livro, a abrir está a do outro nome português: a imperecível Amália Rodrigues. «Quando você quiser conversar e não tiver com quem, venha até cá. Já viu que eu falo muito», disse a diva do nosso Fado a Viriato Teles, na despedida da entrevista feita em 1983, por ocasião do lançamento do disco «Lágrima». Com o título «Humana forma de vida», lá está a Amália que conhecemos e a dar-se a conhecer aos que a desconheciam, porquanto o jornalista regista a forma de estar, os gestos, os esgares, a timidez, as hesitações e a comoção.

Entre os dois portugueses, como num longo abraço instigado por Viriato Teles, surgem os outros entrevistados: Baden Powell, com entrevista feita em Julho de 1982, com o título «O Samba que veio do morro». O intérprete e compositor do Samba que defendeu, a Viriato Teles, ser aquela «uma das músicas mais fortes do mundo, porque o é o resultado de três raças: o africano, o português e o índio brasileiro», deixa uma grande lição: um compositor «tem de aprender a compor aquilo que está dentro do coração e isso é válido para a vida inteira»; Chico Buarque, em dois andamentos, com entrevistas de 1988 e 1997, reunidas sob o título «A arte por via das dúvidas». Explora-se o compositor-cantor, mas também o escritor dos livros Estorvo e Benjamim; titulada «O silêncio da Terra», surge a entrevista ao esquivo Atahualpa Yupanqui, «velho payador argentino», autor de mais de 1200 canções, que percorreu o mundo apenas com a sua voz e a guitarra; Peter Seeger, o que é «muito mais do que um mito da história da folk song», «uma das vozes que mais lucidamente se ergueram contra a massificação cultural imposta pelo poder político e económico dos Estados Unidos, aquele que optou pelo «lado esquerdo da vida», forma de vida transferida para o título da entrevista: «No lado esquerdo da América»; Sting, no cenário dos ficcionados amores proibidos de Romeu e Julieta, com o desejo real expresso na entrevista titulada «A importância de ser feliz»; «Porta-voz de um mundo perdido», segundo o próprio, Léo Ferre desvela-se em oito magníficas páginas da conversa com o título «A Formiga que canta»; Juliette Greco, a senhora «de olhos grandes, profundos, penetrantes. E as mãos que em palco, criam um espaço próprio dentro do cenário» e dão expressividade à entrevista precisamente com o título «Mãos de Fala»; finalmente, o ícone que falta, e sempre com muita pressa: Marcel Marceau, o mimo, o «palhaço triste e sábio», o que junta a mímica ao silêncio para comunicar o grito e o inefável.

Na introdução, Viriato Teles informa que «estas conversas foram maioritariamente publicadas nos semanários Se7e e O Jornal, na década de 80», com excepção da entrevista com Chico Buarque, publicada na revista Ler. Refere, ainda, que a cumplicidade de muitos amigos «foi o melhor dos incentivos» para a reunião dos textos do Bocas de Cena. Mas Viriato sabe também que o leitor já estava no incentivo primeiro do jornalista, pois foi o leitor que lhe pediu esta dedicação que ele, como sempre, tão distintamente cumpriu!

Bocas de Cena, Viriato Teles, Campo das Letras, 2003

© Teresa Sá Couto

nota: este texto foi publicado a 29 de Março de 2008

M.S.Lourenço e "O Caminho dos Pisões"

É hoje o lançamento do O Caminho dos Pisões, obra reunida de M.S.Lourenço. E que fulgurante está a Assírio &Alvim na abertura do ano editorial.


Gostaria de ir ao teu encontro,
Procurar-te na vila, entre as pessoas,
Ou debaixo da magnólia do jardim.
A cascata corre & tu sentas-te a ouvir
Ao acaso as folhas que o vento espalha.
No teu rosto já só vejo ar frio da serra,
As sombras dos que te abrem o caminho
Para que a cor do dia entre no jardim.
Faz com que a angústia nas palavras que usamos
Seja um bom presságio à nossa volta.
Tudo o que é divino é transitório,
Mas não o é em vão.

Nada Brahma, p.48 (livro incluído no O Caminho dos Pisões)

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Poesia reunida de António Osório

Já está nas livrarias o majestoso A Luz Fraterna, que reúne a poesia de António Osório dos últimos 44 anos. São 653 páginas imperdíveis, num belo livro de capa dura, que a Assírio & Alvim dá agora à estampa. Ver aqui.
Além de prefaciado por Eugénio Lisboa, o compêndio compreende também uma entrevista de Ana Marques Gastão - que «revela o homem, na aproximação ao mistério, de uma escrita avessa à retórica» - feita a António Osório em 24 de Março de 2001.

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Deixo 4 textos:

DESPOJOS

Amarras que se lançam ao fluxo das águas,
despojos, limos espraiados,
cabedelos que chegam e partem com o mar,
surgem os versos.

E tudo de roldão, angústia,
vida e morte, oculto movimento de plantas,
o equinócio do amor, que torna a noite igual ao dia,
a confiança, a luta, a respiração dos homens. (p.23)

***
ENTRAR contigo
dentro das searas
e depois
trigo
sairmos da terra. (p.139)

***
VEJO teus olhos,
queria me convertesses
nesta perseverança de cego
esmoler, à porta do Metro,
dedilhando o seu livro
de bilros, e que não explica
nem vislumbra
a pertinácia irredutível da vida. (p. 143)

***
As Lavadoras

Quase todas são negras, fugidas de Angola. Mulheres novas e raparigas, com fatos de oleado e botas de borracha. De dia e de noite, por turnos, lavam os carros na garagem. Contemplo-as: na sua cor e no seu exílio. Entregam-se àquele duro trabalho, e eu admiro o contacto feminino com a água, o apuro, um rigor efectivo – os carros ficam luminosos como crianças saídas do banho. Ou como versos perfeitamente limpos de toda a dor. (p. 420)

Dom Quixote na aventura do futuro

El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), está disponível em Portugal numa versão para crianças. Um álbum espantoso, ilustrado com aguarelas expressivas, numa edição de luxo da editora Campo das Letras que reitera a sua aposta no público do futuro.

No II Capítulo do texto original, pode ler-se: Dichosa edad y siglo dichoso aquel adonde saldrán a luz las famosas hazañas mías, dignas de entallarse en bronces, esculpirse en mármoles y pintarse en tablas, para memoria en lo futuro.!. (Feliz idade e feliz século aquele onde sairão à luz as minhas famosas façanhas, dignas de se entalharem em bronzes, esculpidas em mármores e pintadas em telas para a memória do futuro). Estamos certos que cabe às crianças, agentes do futuro, arrolar as aventuras peregrinas desse cavaleiro louco, porém douto, que ainda encanta leitores de todas as idades.

O livro é da autoria de Rosa Navarro Durán e traduzido para Língua portuguesa por António Rebordão Navarro. Adaptar um clássico para crianças é, seguramente, um desafio metodológico e uma missão maior. Há que depurar o texto base, encontrar-lhe a simetria e a forma para enlear na trama o jovem leitor. Há que adequar o assunto, forma e estilo fazendo com que o universo proposto e os problemas identificados surjam com fácil apreensão. O livro passa com distinção todos os requisitos. O narrador afasta-se do adulto para se aproximar do mundo infantil. O tipo de letra “gorda” desenha a narrativa que vibra nos momentos de avanço – com poucas descrições, os chamados momentos de pausa – da narração. As frases são curtas e simples. Assim se cria a vertigem pelas aventuras fantásticas, de trapalhadas e desditas das famosas personagens, e se enfeitiçam os novos leitores para a literatura que também deleita os adultos.

As Ilustração coloridas e expressivas, repletas de movimento e sentimentos, delicadeza e divertimento, de Francesc Rovira, acompanham e dão forma ao texto e ao encantamento do leitor, ajudam a compreender o conflito e a configurar as personagens, física e psicologicamente. São legendadas com uma frase que compreende uma ideia forte do texto, e actuam como fonte de imaginação para a criança que, a partir do visual, cria o sentido sobre o que é contado, para depois o reestruturar à luz do seu mundo interior. Este é o processo da criação e do crescimento intelectual.

Os ensinamentos da loucura

As aventuras do maluco cavaleiro andante Dom Quixote, que enlouqueceu por ter lido demasiados romances de cavalaria, chegam às crianças indeléveis nos seus valores morais. Figura que reverbera a grandeza humana pela assunção das suas fragilidades – um ser defeituoso pela loucura, e de frágil compleição física – o cavaleiro da triste figura propícia aos miúdos grandes ensinamentos morais. O humanista Erasmo escreveu em «O Elogio da Loucura» que a melhor idade do ser humano é quando se é criança pois tem-se o «encanto da loucura», e questiona: «o que seria dos homens sem o impulso da estultícia?». Também, António lobo Antunes, ao reflectir sobre a loucura do homem, disse: «no fundo o que é enlouquecer? é sair de uma determinada norma, não é? É preciso ter muita coragem para se ser realmente louco.» Desprovidas da razão tantas vezes castradora, e íntimas da loucura, as crianças facilmente se reconhecem nos ideais do anti-herói, pois para elas, as atitudes tidas por absurdas e irreais, não o são. Mais: usam-nas para crescer saudavelmente.

A loucura de Dom Quixote é um ímpeto vital que o atira para a aventura que lhe dá sentido à existência. A aventura do protagonista com condutas fora do seu tempo é uma manifesta fuga a esse tempo e, por isso, encerra a crítica de Cervantes a uma época insonsa e sem encanto. No contraponto, que fortalece o sentido da crítica, está Sancho Pança “alheado” das utopias, com os pés assentes na realidade, mas, talvez por isso, toldado pelo medo: «O medo que tens, Sancho, não te deixa ver nem ouvir nada – disse dom Quixote. E depois de explicar ao seu escudeiro como o medo faz ver as coisas que não existem, disse-lhe que o esperasse, pois ia entrar na batalha. Esporeando o rocinante, desceu como um raio a encosta e lançou-se contra os exército» (p.63).

Aprende-se que a vitalidade da loucura contamina até os “incontamináveis” –chegam a dizer que Sancho parece estar tão louco quanto Dom Quixote. Sancho aprende o benefício da loucura: «Sancho seguia-o, embora o pavor aumentasse á medida que se aproximavam do estrondo. Iam avançando passo a passo e, de repente, viram o que causava o espantoso barulho: eram seis maços, com que se comprimem os linhos, aproveitando a força da água! O riso de Sancho foi tão grande que se esqueceu de todas as suas penas.» (p. 73).

A loucura de Dom Quixote ensina que deve lutar-se pelos ideais sendo claro, também, que a ilusão permite a voluptuosidade da alma: todas as desditas eram interpretadas como novas formas de encantamento, embora Sancho lhe tentasse mostrar que ele não estava encantado, ele estava convencido que sim, «e isso bastava». «Aceitava todas as calamidades como acontecimentos da vida de cavaleiro andante». Consolou Sancho dizendo que «todas essas borrascas anunciavam que depressa sairia o sol e que estavam já prestes a chegar o bom tempo, os reinos e as riquezas.»(p.67)

A loucura permite, ainda, criarem-se laços de amizade: entre Quixote e Sancho desponta uma amizade enternecedora testemunhada ao longo da narrativa, como por exemplo quando Sancho pediu a Dom Quixote um ordenado e foi servido pela resposta veemente do amo: «que se não queria ir com ele, encontraria outro escudeiro mais obediente e decidido. Quando Sancho ouviu a firme determinação do seu senhor prescindir dos seus serviços, caíram-lhe as asas do coração. Então, submisso e enternecido, disse-lhe: - de novo, senhor, eu me ofereço a servi-lo tão fiel e legalmente, tão bem e melhor que quantos escudeiros serviram cavaleiros andantes nos passados e presentes tempos. Senhor e escudeiro abraçaram-se afectuosamente.».

Erasmo, na obra já citada, defendeu que «há tanta variedade e tanta obscuridade nas coisas humanas que nada se pode elucidar» e que «toda a vida dos mortais não passa de uma comédia, na qual todos procedem conforme a máscara que usam, todos representam o seu papel, até que o contra-regra os mande sair de cena».
Dentro de cena, e a adquirir instrumentos de robustez psíquica, estarão os jovens leitores deste novo livro de 202 páginas e quase um quilo, feito para eles, num acto mágico dos autores. Cremos que o «sabio encantador» do futuro que se deixará tocar pelas aventuras peregrinas de D.Quijote – de que falou Cervantes – respeita aos jovens leitores que zelarão pela imortalidade desta narrativa considerada a obra mais significativa da cultura espanhola e um clássico da literatura universal.


Dom Quixote Contado às Crianças, Rosa Navarro Durán e Francesc Rovira; Editora Campo das Letras, Porto, Dezembro de 2005

(a um jovem avô)

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

Myra: o encontro com a inquietação

«Myra» de Maria Velho da Costa acaba de ser galardoado com o Prémio Pen Clube de ficção. Um justíssimo galardão para o portentoso romance que há dias recebeu também o Prémio Máxima de literatura. Segue-se o meu texto editado no site Orgia Literária.
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Este mundo é íngreme. Como tal está cheio de criaturas íngremes. Nosso mister é achatá-lo. É com estas palavras de Luís de Sousa Costa que abre o novo romance Myra de Maria Velho da Costa, e são elas que incitam esta minha leitura.
Achatar o mundo remete-nos para o compromisso que a obra literária estabelece com o acto da leitura: forma de pensar o caos e de inquirição dos abismos humanos, lugar de encontro onde o desconhecido se possa fazer conhecido, permitindo ao leitor confrontar-se com ele mesmo e pensar os modos pelos quais o tormento faz parte da existência. Um compromisso que tem no romance Myra a mais elevada celebração.

Programa narrativo de procura, Myra traz-nos a história de uma adolescente imigrante russa, cujo nome faz título do romance, «proibida de existir», «roubada de poder ser», em fuga dos que a querem seviciar, e da sua amizade com Rambo, um cão de luta, também ele estropiado como ela, ele, o prolongamento dela, a sua alma gémea. Myra foge «contra o vento», por uma praia deserta, em direcção ao mar, com frio e com medo, foge da espécie de bordel da Caparica onde a agrilhoam, foge para Sul, como que em busca do sonho que deixou no Leste. Foge sob um «céu baixo e muito escuro», sob a chuva que lhe bate na cara «como chorar sem gritos».

E Myra nunca mais pára de fugir, colando-se o leitor à sua dor, também ele inquieto, na deambulação, na deslocação física que dá visibilidade à sua angústia, metáfora da deslocação existencial. Impressivas, como se trabalhadas com lâminas de faca, as oito pinturas de Ilda David’, incluídas no interior do livro, constituem mais um caderno para desassossego do leitor. Na capa, também de Ilda David’, o arrebatamento negro e cinza de um laço indestrutível.
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Se o assombro meteorológico, do início da narrativa, impele Myra à anulação – se ela entrasse no mar, «se corresse por ali adentro ninguém daria por ela nunca mais, nem no país dali, nem em nenhum outro» – ela procura, todavia, um barracão que a proteja e é lá que encontra Rambo, maltratado depois de uma luta, com pêlo a espirrar água e sangue. O reconhecimento é imediato: «o sangue puxa sangue», tinham sido feitos um para o outro. É assim que o plano narrativo encontra o carácter e dimensão trágicos de dois seres extraviados, e explora-o, enquanto seres enleados em regras predeterminadas e consabidas, pelas 221 páginas de inquietação do leitor.
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Myra, sem direitos de plena cidadania – motivo da identidade como problema –, e Rambo, sem direitos de escolha, surgem-nos como duas formas de pensar o caos. Ela sempre com medo: «Myra não tem remorsos nem culpa. Tem medo, porque os fantasmas assombram quando querem.». Rambo, sempre vigil, «enlaçado à mão dela pela trela amante», com os sentidos nela, ladra à beira do precipício «onde ela parece siderada, farta de tentar, a tentação», e puxa-a. Na deriva, ele vai alertando-a: «tem cuidado, olha a ilusão», «Não te fies do céu. (…) Atém-te à sombra, mesmo escassa, enquanto a tiveres agarrada aos pés».
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Sem direito a uma identidade, ambos vão mudando de nome consoante os locais e «os outros humanos» que vão conhecendo. Os dois, ou como no reforço dado pelo texto, «ambos os dois», sempre na orla: na orla do mar, na orla da serra, na orla do arvoredo, na orla das sombras, na orla da existência. Concorre, ainda, para o carácter trágico da visão humana, o motivo da procura sempre minada que não só adia o encontro como reforça o desencontro, mostrando que o encontro sempre foi impossível. Mesmo o tempo da felicidade redonda e perfeita, aparentemente paradoxal, que Myra passa ao lado de Gabriel Rolando (um jovem rico mas também marcado com a tragédia), tem na narrativa o tempo do onírico a acentuar o fracasso de um projecto humano, como se fosse necessário conhecer a felicidade para se saber que não se tem direito a ela.
«Os milagres são como o vento, e o vento sopra onde quer», diz-nos o texto. Quando o vento lhes nega o encontro com o Sul e os agrilhoa no percurso para o Norte, intui-se a tragédia: Myra e Rambo suicidam-se, decidindo ir juntos para o «reino dos céus».

Construído em torno da noção de voz, este romance da autora de Missa In Albis evidencia, também, o carácter dialogal de todo o discurso humano. Myra fala para o cão e pensa para o cão , o cão responde-lhe e aquiesce aos seus pensamentos. Ela não quer ouvir vozes, porque quer seguir em frente, mas não pára de as ouvir. São as vozes das raízes, vindas de longe, murmúrios do mundo que o homem escuta dentro de si e que nunca consegue calar. Myra ouve a voz da família, e benze-se “à russa” no encalço de uma força metafísica, que lhe dá, não conforto, mas ansiedade. Myra é, pois, o lugar onde repercutem as várias vozes do mundo e são elas que dão ao romance uma rima interna fortíssima.
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Narrativa sobre a noite humana e a luz da amizade que existe nessa noite, Myra faz-nos reflectir sobre as forças agitadas que estão sob a superfície, que o homem é incapaz de conter. Programa de procura, Myra é inegavelmente um lugar de encontro com a inquietação e, por isso, com a melhor literatura.

este texto foi editado em 19.02.09 no site Orgia Literária

© Teresa Sá Couto

quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Prémio Leya para João Paulo Borges Coelho

O Olho de Hertzog é o título do romance do escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho, vencedor do prémio Leya 2009. O título estará disponível em Março, com a chancela da Caminho, que tem publicadas sete obras do escritor: As Duas Sombras do Rio, As Visitas do Dr. Valdez, Índicos Indícios I. Setentrião, Índicos Indícios II. Meridião, Crónica da Rua 513.2 , Campo de Trânsito e Hinyambaan.
Trago para a ordem do dia, o texto que elaborei sobre o magnífico Campo de Trânsito, livro do qual, incompreensivelmente, pouco se falou.
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Cega-nos a rotina a tal ponto que só quando agitamos freneticamente os braços como duas ventoinhas na esperança vã de recuperar o equilíbrio perdido à beira do precipício nos apercebemos de que o caminho por onde seguíamos não vai dar a parte alguma.
Isto diz-nos João Paulo Borges Coelho no surpreendente Campo de Trânsito, livro do ano passado e do qual, incompreensivelmente, pouco se falou. São doze capítulos como doze pancadas na modorra dos nossos dias, que nos acordam para todas as interrogações existenciais:

- será a vida um permanente campo de trânsito onde gastamos o tempo a desenvolver estratégias de sobrevivência com que iludimos o quotidiano? É esse um lugar que escolhemos ou é ele que nos escolhe, títeres existenciais? Como se sai de uma «interminável e pestilenta espiral»? O que somos além de cansaço depois de tanto caminho percorrido em vão?

Nascido no Porto, mas naturalizado moçambicano, João Paulo Borges Coelho é um dos grandes nomes da Literatura de Expressão Portuguesa. Depois de «Crónica da Rua 513.2 », título anterior e também editado pela Editorial Caminho, o historiador e escritor traz-nos em «Campo de Trânsito» uma alegoria da condição existencial através da personagem J. Mungau - que pode ser qualquer um de nós -, no chão de Moçambique - como pode ser em qualquer chão onde se deixa o sangue, sendo o chão uma metáfora da caminhada.

J. Mungau, homem urbano, é acordado numa noite na sua casa, com pancadas ritmadas na porta que o arrancam ao torpor de uma ressaca. É feito prisioneiro por um agente de nome Bexigoso, levado para uma cela, e depois por um percurso de pó argiloso, espesso e vermelho, como sangue, até desembocar num Campo de Trânsito onde fica a aguardar transferência para um lugar definitivo.

Os três espaços são as bases de uma urdidura original com fortíssima densidade psicológica. Arrancado ao seu lugar, J Mungau deixa de ter nome, e passa a ser um número – prisioneiro 15.6., uma perda de identidade que indicia o caminho da procura de uma nova. Questionando-se sobre as razões da sua prisão, as quais nunca chega a saber, e esperando que o equívoco seja desfeito – como tantos equívocos da nossa vida nunca são desfeitos – o prisioneiro, todavia, vai esquecendo-se dessa interrogação, como quem se resigna às circunstâncias. Também não chegará a um lugar definitivo, o que demonstra que o único definitivo da vida é a morte.Lugar de confluência de pessoas de vidas fragmentadas – que é preciso aglutinar, «cada fragmento uma folha de papel», milhares de páginas dentro de pastas que o Director procura organizar (as páginas e as vidas) –, o presente do Campo de Trânsito conta também com as tensões de outros dois campos: o Campo Antigo e o Campo Novo, o passado e o futuro.

Nessa teia de tempos, sem se encaixar em nenhum, Mungau aprende o poder de alguns objectos – nomeadamente da faca que passa a deter e que vai ser um instrumento do destino –, perscruta as relações que o cercam, observa as diversas estratégias de sobrevivência. Para isso, o texto dá-nos uma galeria portentosa de personagens em interacção, com que se constrói o caos existencial: o Professor do Campo e a estranha Mulher do Professor – uma hortelã que vive no seu retalho de horta fustigando o chão com uma mão de dois dedos, uma tenaz, enquanto o marido divulga o conhecimento entre os prisioneiros –, os prisioneiros, os guardas, os feirantes que vão ao Campo uma vez por mês, o Chefe da Aldeia e a filha casadoira - a Desengonçada Garça -, o misterioso Vendedor de Chá.

No trapézio do destino

O agente Bexigoso acompanha Mungau durante todo o tempo de detenção no Campo de Trânsito. Ele representa a sombra onde se tropeça, a metáfora dos “Bexigosos” que nos barram o caminho. Arrogando-se actor do seu destino, e apesar de todos os equívocos que ele acha não serem da sua responsabilidade, Mungau tenta iludir os limites que o aprisionam e, no horizonte infinito da imaginação, convoca uma plateia para a qual representará com humildade e dignidade, para que ela se condoa, para que ela, cúmplice, seja uma companhia amiga, um conforto. E sonha, ainda que num sonho contaminado pela dureza da realidade:

(...)aos poucos chama novamente o palco e fecha os olhos para que se apaguem as luzes da plateia. A cela tem agora um tecto muito alto. Lá em cima, um trapezista evolui ousadamente agarrado a um baloiço. Risca o ar em curvas largas, subindo quase até ao tecto e voltando a descer. Subitamente, quando acha ter já ganho o impulso suficiente, larga o baloiço, volteia no espaço, estica os braços e finca as mãos num baloiço seguinte até então oscilando vazio como se não tivesse propósito algum, na verdade tendo o propósito precioso de estar ali para que ele possa agarrá-lo e se salvar. Sempre que tal acontece sobe um murmúrio ansioso e a audiência explode numa nervosa salva de palmas. Admiração e alívio é o que significam aquelas palmas.

Durante um tempo o trapezista executa as suas temerárias evoluções, ganhando balanço para largar o primeiro baloiço, confiante de que, pendendo à espera dele, estará o segundo. Até que de uma das vezes resolve olhar para cima e o seu olhar cruza-se com as pupilas brancas do Bexigoso que, na plataforma mais elevada, segura as cordas do segundo baloiço debatendo-se na dúvida se o envia ou não. Dessa troca de olhares vem ao trapezista a certeza de que haverá uma vez em que o maldito não o fará. De que vai tropeçar no ar, agitando as mãos no desespero de encontrar qualquer coisa a que se agarrar. E irá caindo, caindo, enquanto cresce um rumor de aflitas e desencontradas vozes na audiência.Acorda quando embate no solo com violência. É noite.

Campo de Trânsito, João Paulo Borges Coelho; Editorial Caminho, Lisboa, 2007

© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Entrevista a Albano Martins

Entrevista em 4 partes, difundida pela Página Literária do Porto. Ver, também, textos meus sobre Albano Martins, Aqui











domingo, 11 de Outubro de 2009

A Lusofonia no desafio da globalização

Língua materna em Portugal e no Brasil, língua oficial em Angola, Cabo verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Moçambique – os PALOP – e Timor-Leste, língua de uso em Macau, Goa, Damão, Diu e Malaca, a Língua Portuguesa é ainda falada nos quatro cantos do mundo onde chega a diáspora lusa. Ainda, e acatando o que defende Eduardo Lourenço, a lusofonia deve incluir a Galiza: «como imaginar o espaço lusófono, e na medida em que ele é o horizonte onde inscrevemos a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, sem incluir nele a Galiza?»

«Quem tem José Saramago e Jorge Amado, quem tem Mia Couto e Pepetela, quem tem Milton Nascimento e Gilberto Gil, quem tem Cesária Évora e Madredeus, quem tem Walter Salles e Manoel de Oliveira já conquistou certamente um sólido espaço específico no mercado cultural globalizado», diz Eduardo Namburete sobre a força e o papel da lusofonia no Mundo, no livro «Comunicação e lusofonia», que colige as comunicações da I Conferência Internacional sobre Comunicação e Lusofonia, na Universidade do Minho, a 7 de Outubro de 2006. A conferência reuniu investigadores de Portugal, Angola, Moçambique, Brasil, Timor-Leste e dos Estados Unidos da América. Os trabalhos desenrolaram-se em 3 painéis plenários: Lusofonia: Equívocos, Fronteiras e possibilidades; Políticas da Língua e Identidade; Os Media e a Memória Social.

«A cultura e o progresso são filhos da mistura»

«Aquilo que motiva a lusofonia como coisa sua é a sua globalização multiculturalista, dentro de áreas culturais específicas, uma globalização paradoxalmente regionalista, que se alimenta de um imaginário de territórios, memórias e paisagens vivos e concretos», refere Moisés de Lemos Martins, Presidente da Conferência Internacional Comunicação e Lusofonia, para salientar que «a cultura e o progresso são filhos da mistura».

Na mesma linha de argumentação, António Guimarães Rodrigues, Reitor da Universidade do Minho, cita Confúcio: «“Se trocar uma laranja com outra pessoa que também possui uma laranja, cada uma fica com uma laranja. Mas, se trocar uma ideia com alguém que também tem uma ideia, então cada um fica com duas ideias”. Trocar opiniões, ideias e interpretações é mais do que trocar informação. E as ideias são diversas. Não se somam de forma conservativa. Constroem e criam novas ideias. A globalização que todos ajudámos e ajudamos a construir não significa o imperativo de nos despojarmos do que nos dá identidade. Antes pelo contrário, no conjunto dos valores e das promessas que nos atraem para a construção de um Mundo global, a diversidade das diferentes identidades funciona como elemento de ligação e garante a sua sustentabilidade.». Assim, sintetiza, «num tempo de globalização, em que o mote é a constituição de redes de conhecimento e cultura, os países lusófonos possuem-na, dela têm consciência, e querem promovê-la e atribuir-lhe um papel efectivo ao serviço do desenvolvimento».

Maria Manuel Baptista, docente na Universidade de Aveiro, lembra que o espaço da lusofonia é um «apetecível mercado de milhões de consumidores», além de que «o Brasil e os outros países lusófonos têm-nos como necessária porta de entrada noutros mercados e culturas ocidentais.». Assim, defende, cabe a Portugal defender o seu património secular, histórico, linguístico e cultural no mundo (…) pretende-se conferir à lusofonia (tal como outrora ao Império) uma lógica predominantemente afectiva e moral: cada parte não pode dar largas ao seu “egoísmo” e deve concorrer para o todo, para o bem comum.».

Se não podemos fugir à globalização, podemos defender-nos da invasão da língua da globalização, antecipando-nos aos seus efeitos, como defende Eduardo Namburete, docente universitário em Moçambique: «levar a cultura lusófona para o Reino Unido, Estados Unidos da América, Nigéria, Burundi, Singapura e outros cantos do mundo, a aposta na difusão internacional da cultura lusófona, através da massificação da produção cultural no nosso espaço de referência, ensino e formação do português deve ser uma estratégia prioritária da lusofonia.».

A língua que permite a união

A adopção do português em Timor-Leste como língua oficial a par do tétum reflecte, segundo Xanana Gusmão, a afirmação da identidade pela diferença, identidade que é «vital para consolidar a soberania nacional». Com efeito, referem Regina de Brito e Neusa Bastos, docentes universitárias em São Paulo, «o português possibilita, dentre outras coisas, o resgate e a manutenção do carácter híbrido da cultura timorense e o acesso ao conhecimento já disponível nos países lusófonos – que já contam, especialmente em Portugal, e já agora no Brasil, com diversos estudos sobre a Cultura e História timorense. Por fim, acentuam os timorenses, é preciso valorizar a força do português, sexta língua mais falada no globo, como forma de união entre os oito países da CPLP e um mecanismo de inserção dos timorenses no mundo globalizado». As autoras referem também o caso «multiétnico, multicultural e multilinguístico» de Moçambique rodeado de países de língua inglesa e associado à anglófona Commonwealth, onde a língua portuguesa é a «única utilizada na alfabetização de adultos, no ensino e na formação» e, no meio da diferença, é esta que vai encontrando «denominadores comuns em todos».

Comunicação e lusofonia – Para uma abordagem crítica da cultura e dos media; Editorial Campo das Letras, Porto, Dezembro 2006


© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Sérgio Luís de Carvalho lança novo romance

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O Destino do Capitão Blanc é o título do novo romance histórico de Sérgio Luís de Carvalho, com a chancela da Planeta. O lançamento está marcado para a tarde do próximo sábado, dia 10, na Fnac do Chiado, com apresentação de Miguel Real.

Sempre na peugada da Memória, Sérgio Luís de Carvalho traz-nos «os destinos» de um capitão do exército português, nos três últimos meses da Primeira Guerra Mundial, de 7 de Agosto a 27 de Novembro de 1918. Luís Guilherme d’Orey Sarmento Blanc, «solteiro, 29 anos, filho do cidadão belga Guillaume Blanc e da senhora portuguesa D. Maria Amélia d’Orey Sarmento», «instrutor na Escola de Guerra e colunista do jornal “A Situação”… (periódico afecto ao governo sidonista e ao Partido Nacional Republicano)», lê-se no Prólogo, é a personagem que incentiva a escrita no jogo da realidade e ficção que ilumina um passado de sombras da Primeira República e da Primeira Grande Guerra.

À semelhança de anteriores títulos do escritor, trarei brevemente a minha leitura crítica desta novíssima obra. Ver textos sobre O Retábulo de Genebra e Os Peregrinos Sem Fé.

segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Os males humanos e a verdade de Brecht

Aqui jaz B.B., limpo, objectivo, mau. Esta era a missiva tumular que Bertolt Brecht confessou gostar de ter na sua sepultura. Mas é também a marca da reflexão dialéctica entre o Bem e o Mal do ser humano, indagado com «verdade concreta» impulsionada por um ideal: desalojar a maldade apesar do apelo – ou devido exactamente a ele – de que só sendo-se mau se domina o mundo; e lutar nessa missão, estreme e intrépido, apesar das desilusões, mesmo que o Epitáfio venha a ser este:Escapei aos tigres /Nutri os percevejos /Fui devorado /Pela mediocridade.

Como sempre com autores estrangeiros, há que ter atenção às traduções. Sugiro as Peças de Teatro, que têm vindo a ser coligidas em vários volumes pelas Edições Cotovia; na poesia, destaco a pequena Antologia Poemas, com tradução, selecção, estudos e notas de Arnaldo Saraiva, com a chancela da Campo das Letras e, para uma leitura mais integral da obra do alemão, a grande Antologia Poemas, da Asa, com versão portuguesa de Paulo Quintela, organização e prefácio de António Sousa Ribeiro.

Várias obras de Brecht têm subido aos palcos portugueses. Destaque-se Um homem é um homem, escrito pelo dramaturgo alemão em1953, encenado pelo magistral Luís Miguel Cintra para o Teatro da Cornucópia, espectáculo que foi galardoado com o Prémio da Crítica 2005.

Arauto das injustiças sociais, Brecht fez da palavra a arma contra a indiferença, promoveu a interrogação e a reflexão sobre a identidade individual, a alienação, a violência da guerra, a desumanização. Presenciou as duas Grandes Guerras, a Revolução na Alemanha com o massacre dos seus líderes e milhares de operários, a fome dos anos 20, a ascensão do nazismo e, com ele, Hitler. Anteviu perseguições políticas, soube-se alvo delas e escreveu-o:

As ruas do meu tempo conduziam ao pântano. A linguagem denunciou-me ao carrasco. Eu pouco podia fazer. Mas os que estavam por cima estariam melhor sem mim, disso tive esperança.

Mais do que sentimentos, Brecht pede actuações. Quem é teu inimigo? pergunta, para logo responder, num jogo subtil e didáctico com o leitor:

O que tem fome e te rouba /o último pedaço de pão chama-lo teu inimigo. /Mas não saltas ao pescoço /do teu ladrão que nunca teve fome.

Assim, a ordem é abrir os olhos e agir para haver equilíbrio na luta contra a injustiça que age de olhos bem abertos:

A injustiça avança hoje a passo firme. /Os tiranos fazem planos para dez mil anos. /O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são. /Nenhuma voz além da dos que mandam. /E em todos os mercados proclama a exploração: isto é apenas o meu começo. /Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem: /Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos. /Quem ainda está vivo nunca diga: nunca. /O que é seguro não é seguro. /As coisas não continuarão a ser como são. /Depois de falarem os dominantes /Falarão os dominados. /Quem pois ousa dizer: nunca?

Também a sátira brechtiana é desenrolada até ao cinismo, apesar do exílio do autor, quiçá por isso mesmo, e assume-se sem esconderijos para servir a pedagogia. Próprio de um homem de Teatro, a verosimilhança da mensagem - os comportamentos, situações, pessoas concretas - atinge certeira o leitor ou o espectador, no caso da dramaturgia, porque é a eles que se dirige e é deles que se fala. E os poemas ora olham acutilantes o poder político, ora detêm-se denunciadores na insanidade da guerra:

Todos os dias os ministros dizem ao povo /Como é difícil governar. Sem os ministros /O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. / Nem um pedaço de carvão sairia das minas /Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda /Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra /Nunca mais haveria guerra. E atrever-se-ia a nascer o sol /Sem a autorização do Führer? /Não é nada provável e se o fosse /Ele nasceria por certo fora do lugar(…)

**
(…)De pé à sua volta à hora de morrer / – Nós todos. /E /Lá estava também a mulher que o dera à luz /E que não disse uma palavra quando o levámos. /Que essa mulher seja estripada! /Amem. /Mas quando o matámos tratámos /De transformar o seu rosto /com as marcas dos nossos punhos. /Assim o tornámos irreconhecível /para não o darem como filho de algum homem. /Fizemo-lo sair do aço. /Trouxemo-lo para a cidade. /Enterrámo-lo sob uma pedra e sob um arco chamado /Arco do Triunfo /que pesa 1.000 quintais para que /O soldado Desconhecido /Não se levante no dia do Juízo Final /E irreconhecível /Mas de novo e para sempre na luz /Não vá diante de Deus /Apontar-nos a nós, os reconhecíveis, /À Justiça.

© Teresa Sá Couto

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

«A Morte de Portugal»

Reflexão sobre nós, num Ensaio de Miguel Real

O livro A morte de Portugal de Miguel Real vai estar em debate na livraria Almedina do Arrábida Shopping, dias 10 e 31 de Outubro, com ambas as sessões às 17 horas e entrada gratuita.
O sentido de oportunidade do debate é, pois, irrepreensível. Recupero aqui o texto que elaborei na altura do lançamento do livro, em 2007.

A «”morte de Portugal” não significa que Portugal desapareça (Portugal “dura”, escrevia Eça de Queirós durante a crise do Ultimatum; é, aliás, a sua grande virtude, não dar felicidade ao seu povo, mas durar, sobreviver, existir por existir, criando contínuas mitologias que justifiquem a sua existência)», diz Miguel Real .A morte de Portugal residirá, então, no desaparecimento de toda a originalidade portuguesa substituída pela vertigem estrangeira por uma «ditadura tecnocrática» instituída por «técnicos medíocres» para quem só conta «primeiro, a contabilidade das estatísticas, e, segundo, o sentido europeu das estatísticas». Mais, acrescenta Miguel Real:

«em nome de um orçamento metafísico e de uma canina imitação do pior da Europa, terão sido eliminados por este os curtos direitos ganhos pelas populações desde o 25 de Abril de 1974 (ter escola na sua terra, ter maternidade na sua terra, ter assistência hospitalar na sua terra, ter dinheiro suficiente para ir ao dentista, ter reforma garantida). É um Portugal solto, desregrado, cheirando alarvemente a dinheiro, os ricos por o terem, os pobres por o desejarem, todos por nas “Índias” o espreitarem, isto é, na mirífica Europa.».

Este é um «ensaiozinho despretensioso e reflexivo de horas nocturnas», no dizer do próprio ensaísta, texto ágil, acutilante, intervencionista, predicados para um prazer incomensurável de leitura, dizemos nós. Em 123 páginas, com Introdução, três capítulos e um Índice Onomástico, Miguel Real consulta 800 anos de política, mentalidades, História da Cultura e História das Ideias para desembocar nas actuais páginas de jornais onde corre a narrativa sobre quem somos e em quem nos estamos a transformar. Sobre o resultado do comando do Estado por «títeres janotas que transfiguram a nobre arte da política numa cinzenta cadeia técnica de raciocínios casuais», «uma nova geração de engenheiros e economistas totalmente desprovida de espírito histórico», escreve o ensaísta:

«Portugal permanecerá, na sua posição relativa face aos países mais ricos da Europa, como se encontra desde o reinado de D. João III, na base da tabela», com um «povo pobre, analfabeto e supersticioso. (…) É o Portugal de D. João III (menos de 30 anos depois de D. João III tínhamos sido condenados à inexistência por Castela), o Portugal do “Nada para que caminhamos” de Marquesa de Alorna, um Portugal merecedor de um Gil Vicente, que infelizmente não o há. É a orgia báquica dos técnicos cinzentos e dos políticos janotas antes da grande derrocada, como aconteceu na segunda metade do século XVI e na passagem entre os séculos XVIII e XIX.». Invocando o nome grande das letras portuguesas que também designa o Dia de Portugal, escreve o ensaísta:

«Camões, de facto, merece ser o símbolo do povo português – homem azarado, poeta pobre, brigão, mulherengo, condenado pelo Estado, perseguido pela igreja, nunca terá frequentado a Universidade (“saber de experiência feito”), migrante do Império, ora aqui, ora acolá, a sua vida, como a de Fernão Mendes Pinto, reproduz a vida dos portugueses que nunca beijaram a sombra do Estado, adversa às elites reitoras do Poder.».

Os quatro complexos de Portugal

Desenhando os quatros pontos cardiais por que Portugal se tem movimentado na sua História, Miguel Real apresenta quatro complexos culturais. O primeiro, da ORIGEM EXEMPLAR, é o complexo viriatino, que «emerge na segunda metade do século XVI», radicado na imagem de Viriato, «herói impoluto, puro, virtuoso, soldado modelo, chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor humilde que se revolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro» que só pela traição é derrotado.
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O segundo, o da NAÇÃO SUPERIOR, o complexo vieirinho, que irrompe depois de D. João III, Alcácer Quibir e a decadência do Império, com o Padre António Vieira a semear a esperança, anunciando-nos o Quinto Império «dourando-nos o futuro com o regresso anunciado às glórias do passado», e que «nos determina a desejarmos mais do que nos pedem as forças e nos exigem as circunstancias, pulsao social que orientou as caravelas portuguesas;»

O terceiro, da NAÇÃO INFERIOR, o complexo pombalino, radicado no ímpeto de Pombal, o da nação humilhada pelo seu atraso e sequiosa das luzes europeias, «hoje acefalamente política dominante do Estado português, que a segue como “bom aluno”.

Por fim, o do CANIBALISMO CULTURAL, o complexo canibalista, «que alimenta o desejo de cada pai de família portuguesa de se tornar súbdito do chefe ou do patrão, “familiar” do Tribunal da Inquisição, sicofanta da Intendência-Geral de Pina Manique, “informador” de qualquer uma das várias polícias políticas, carreirista do Estado, devoto acrítico da Igreja, histrião da claque de um clube de futebol, bisbilhoteiro do interior da casa dos vizinhos, denunciador ao supremo hierárquico», aludindo-se, na actualidade, à «perseguição a funcionários públicos rebeldes pelos poderes partidários instituídos pelo governo de José Sócrates/Cavaco Silva.».

«Se a vitória europeia de Portugal se consumar, terá sido a geração nascida entre 1940 e 1960 a matar D. Sebastião pela segunda vez», diz, sem que, no entanto, antes desafie:
«Resta aos homens de bem virarem as costas a esta nova elite tecnocrática que assaltou e se apoderou do Estado português (..) e, se puderem, emigrarem, clamando que aos homens-técnicos leva-os o Tejo e o Douro nas enxurradas de Inverno, os homens-cultos, esses, permanecem, recriando a nova imagem literária, estética e cultural por que Portugal posteriormente se reverá no espelho da História.».

A Morte de Portugal, Miguel Real; Editorial Campo das Letras, Porto, 2007

© Teresa Sá Couto

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

David Mourão-Ferreira ou a inscrição da memória

(texto publicado hoje no site Orgia Literária)


O tempo é reversível. Pela memória exuma-se um passado tido como perdido. Se a memória é acção, a palavra é a criação que lhe confere sentido: juntas executam o eterno retorno, transfiguram, legitimam o tempo branco, perpetuam-se e perpetuam o seu criador.
A memória é o tema irradiante da escrita de David Mourão-Ferreira (1927-1996), com fulgor máximo na Obra Poética editada entre nós pela Presença. Fulgor máximo porque, como defendia Calvino, uma obra não se explica por parcelas, mas sim na sua totalidade, e esta Antologia – que colige a poesia do autor de 1948 até 1988 – tem todas as parcelas da grande urdidura do esplendor.
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A memória persiste amolecendo-a: assim a representava Salvador Dalí nos relógios moles pendurados de ramos secos, numa alusão ao carácter maleável do tempo quando sobre ele age a criação artística. Na mesma esteira, David Mourão-Ferreira usa outra metáfora singular: a memória como mármore mole, a memória sustentada por dois excessos, «o da fixidez e o da diluição» – assim referido por Eduardo Prado Coelho que prefacia a Antologia –, o que permite ao poeta modular a sua enunciação, confirmado pelo próprio: «mármore, sim…mole porém, como a casca da árvore, como o vento no sono escutando…». Na mesma metáfora, é evidente a luta e a dor da criação:
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Luta de corpo a corpo no interior do corpo.
Monólogo do tempo no interior da alma.
Monólogo monótono com saltos inesperados!
Monólogo no mármore mais mole de que há memoria…
Mármore, e mar, e vento sobre o mar…
Memória!
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Poética da «Apoteose do Nada» – na demanda daquilo que na memória se pode e deixa construir, uma «matéria obscura que obstina para além da vida ou da morte» –, a obra poética de David Mourão-Ferreira tem, segundo Eduardo Prado Coelho, uma «estrutura de tríptico» – «és retina, és rotina, és renovo», enuncia o próprio David –, com os últimos livros organizados em «incursões nos ciclos anteriores». Comprova-se o carácter circular da memória com a própria criação poética configurada no Eterno Retorno:
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todo o dia senti,
bem funda, em mim,
a tortura do beijo que não demos:
lago sereno, preso num jardim,
saudoso dum nenhum sulcar de remos.
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(Continuar a ler AQUI)
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© Teresa Sá Couto

Espaço Web de Camilo Pessanha

A Biblioteca Nacional (BN) fez ontem a apresentação pública do sítio Web de Camilo Pessanha. Representante do simbolismo português, o autor deu-nos, num só livro, Clepsidra, uma poética de símbolo, sugestão e música, construídas com ânsia, abulia e sentido de diluição, de inutilidade da vida.
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Fernando Pessoa considerou-o seu mestre; António Ferro disse, sobre Clepsidra: «a nossa geração tem um missal. Saiu o livro de Camilo Pessanha. A alma de todos nós, desnorteada, tem, enfim, um relógio». Com efeito, o título Clepsidra funciona como símbolo de uma poesia de símbolos: se no grego significa relógio de água, a terminação –idra remete para hidra, mitológico monstro marinho, serpente de inúmeras cabeças que nascem e se desenvolvem à medida que são cortadas, símbolo da impotência humana perante os obstáculos, manifesto sobre a fragilidade da condição humana.
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Que este novo sítio na Web seja, pois, um incentivo para se revisitar Camilo Pessanha, o «exilado da beleza».
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Um poema:
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Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
– Bom dia, companheiro – te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei…
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso, solitário.
Corta os pés como a rocha dum calvário,
E queima como a areia! … Foi no entanto

Que chorámos a dor de cada um…
E o vinho em que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

in Clepsidra, p.38, Biblioteca Ulisseia, 1987

terça-feira, 22 de Setembro de 2009

A Televisão do share e das elites

Publico este texto em resposta a inúmeros pedidos de sugestões de títulos que analisam o jornalismo em Portugal, e na sequência doutros que tenho aqui trazido.

Se atentarmos nos plateaux informativos das nossas três estações de televisão, verificamos que «não se descobrirá o retrato do país que somos. Antes se vê aí desenhado um mapa social que salienta as elites que a TV absorve e reforça.». Esta é a conclusão de Felisbela Lopes depois de rastrear doze anos de programas informativos (de 1993 até 2005), num Estudo agora editado no livro «A TV das Elites». De contributo imprescindível para o debate da televisão que temos, a obra investiga e interroga a informação televisiva não-diária – sobretudo, debates e entrevistas – na peugada da verdade que se revela de nós através do que se oculta; são quatro capítulos em 371 páginas, num exame completíssimo que nos avalia social e culturalmente

Com a chancela da Campo das Letras, o título pertence à Colecção Comunicação e Sociedade – uma colecção ímpar de abordagem crítica à Comunicação Social – dirigida por Moisés de Lemos Martins, do Centro de Estudos de Comunicação e da Universidade do Minho. A presente obra retoma parte da dissertação de doutoramento de Felisbela Lopes, colaboradora do jornal Público de 1990 a 1996.

A análise clara, objectiva, contextualizada, bem documentada e bem organizada por capítulos e alíneas norteadoras, são um apelo para a leitura não só por jornalistas, políticos ou investigadores, mas também por «todos os interessados na res pública, incluindo particularmente aqueles que frequentam as escolas secundárias e o ensino superior», como refere, no prefácio, Manuel Pinto, coordenador do projecto Mediascópio e director do CECS – Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.

Informação sacrificada pelo Share

Sendo certo que os dados audimétricos condicionam as opções de programação das televisões, um dos grandes objectivos de Felisbela Lopes é mostrar que as novas grelhas avançaram cada vez mais para o espaço privado sacrificando os programas informativos: se em 1993 – com coabitação das estações privadas no Panorama Audiovisual Português (PAP) – ainda se verificava um número razoável de programas de informação, a partir de 2000 «a informação semanal vai sendo desalojada do horário nobre dos canais privados para dar mais espaço ao entretenimento que hegemoniza os serões televisivos». A lei do mercado, e na guerra das audiências, enreda também o serviço público de televisão que passa a seguir os exemplos das privadas.

Concomitantemente, o espaço televisivo vai sendo tomado por elites, evidenciando-se, também a preferência que os jornalistas lhes dão. Como consequência, refere-se, em 2002 tinha-se um «espaço público pouco diversificado do ponto de vista temático» e com representatividade limitada, que nós reconhecemos por serem “sempre os mesmos a falar das mesmas coisas”. Defende-se que quem é desconhecido da opinião pública, ou não pertence a «instituições centrais onde se exerce o poder político» tem poucas possibilidades de aparecer no ecrã. «Consequentemente, construiu-se no espaço televisivo uma enorme espiral de silêncio que se foi avolumando ao longo dos anos.».

A par da explanação apurada, a autora apresenta quadros sintéticos da programação semanal nos diversos anos, perfil dos convidados, evolução das audiências, quadros comparativos de audiências, oferta e consumo de informação semanal de prime time (por meses, dias e horas), temas de maior sucesso, percentagens de políticos presentes nos programas de informação, entre outras vertentes em análise.

Informação ou espectáculo?

Refere a autora que, nos anos em Estudo, «o cidadão comum foi desvalorizado na informação semanal» das três estações de televisão. «Nesse período, poucos programas reclamaram a sua presença para os plateaux televisivos e, sempre que o fizeram, foi para o integrar em talk shows ou para lhe solicitar um testemunho pessoal sobre um tema que seria depois discutido por especialistas ou com actores das indústrias culturais». Na tentativa de o incorporar nas emissões surgiram os telefonemas, o televoto, cartas, SMS, «mas esses diferentes meios de acesso, para além de controlados pelos responsáveis dos programas, apenas permitiam uma participação marginal e, não raras vezes, pouco representativa da população portuguesa.». Acresce que, defende-se, aquela «participação à distância não equivale ao direito à palavra que os convidados dispõem nos plateaux dos debates televisivos», tanto mais que o cidadão comum está excluído das grandes-entrevistas.

Advoga-se que, nos doze anos, deparamo-nos com o crescimento de programas ditos informativos, um «terreno ambíguo entre informação (que não prestavam) e o entretenimento (que não era explícito, por se tratar de histórias reais e sofridas de pessoas concretas). (…) Os temas, embora pudessem ser integrados no espaço público, eram atravessados por vivências privadas apresentadas por um discurso emotivo ao serviço do espectáculo da palavra através do qual se exibia o ser humano degradante: crimes, escândalos sexuais, negócios de pornografia, etc. ser célebre, neste contexto, significava não ter direito a uma vida privada.». Por outro lado, defende-se, esta «espectacularização do discurso» é uma «forma ilusória de transformar a televisão num meio reparador de injustiças sociais», porquanto representam uma parte ínfima da população.

Refere a autora que este Estudo sobre a TV que temos não permite grandes optimismos. Todavia, apelando à intervenção de todos, lança-se um desafio, que fazemos também nosso: «não nos dêem a televisão que queremos, nós merecemos muito mais».


A TV das Elites, Felisberta Lopes; Campo das Letras, 2007


© Teresa Sá Couto

sábado, 19 de Setembro de 2009

Sessenta anos de corrupção na ONU

Um livro demolidor de Eric Frattini

Digo-vos, infelizes, lixados pela vida, vencidos desolados, sempre empapados em suor, advirto-vos: quando os grandes deste mundo começam a amar-vos é porque vão converter-vos em carne para canhão. O aviso é de Louis-Ferdinand Céline, restaurado pelo polémico, inquiridor, denunciador e demolidor Eric Frattini. Autor de «A Santa Aliança – Cinco Séculos de Espionagem do Vaticano», o jornalista, investigador e escritor nascido em Lima, em 1963, assina mais este título abrasivo: ONU – História da Corrupção, onde descreve e documenta, sem constrangimentos, 60 anos de fraude, «corrupção, favores, assédio e abusos sexuais, pederastia, nepotismo, clientelismo, esbanjamento, burlas, torturas, subornos, má gestão e uma catastrófica administração» da Organização das Nações Unidas, tida como um «monstro que continua a engordar» exaurindo os ideais que lhe serviram e legitimaram a criação.

Em nota introdutória, datada de 2005, o autor diz que o livro não é um texto histórico sobre as Nações Unidas, mas um capítulo dentro da longa história daquela organização, feito com informação verídica, muita com recurso a documentos "classificados", fornecidos «por funcionários da ONU muito interessados em que se tornassem públicos». A exposição de Eric Frattini é acompanhada de fotografias, reprodução de documentos oficiais, uma extensa bibliografia, e listagem de Organismos e Meios de Comunicação consultados. O resultado é um ensaio que vai desde a raiz da ONU até aos ramos da actualidade.

Ao longo de doze capítulos, feitos degraus de descida aos subterrâneos iníquos do poder, o autor acompanha os mandatos dos sete Secretários-Gerais da organização para relatar como Trygve Lie, primeiro secretário-geral da ONU, cooperou abertamente com o Comité de Actividades Antiamericanas de McCarthy na sua "caça às bruxas" dentro da ONU; como Dag Hammarskjöld permitiu a entrada de agentes da CIA na sede da ONU e como ajudou essa entidade a manipular a política do Congo; como U Thant protegeu seis diplomatas árabes suspeitos de assassinar uma norte-americana numa orgia de sangue e sexo em troca de uma importante doação; como Kurt Waldheim ocultou o seu passado nazi e os seus anos de serviço no exército de Hitler; como Javier Pérez de Cuéllar protegeu e promoveu as influências pessoais e o esbanjamento entre altos funcionários da ONU; como Butros Butros-Gali protegeu altos funcionários da ONU – seus amigos pessoais – de graves acusações de assédio sexual sobre funcionárias da organização; ou como Kofi Annan fechou os olhos em relação aos maiores casos de genocídio no Ruanda e em Srebrenica e, por "omissão", face ao maior caso de corrupção de toda a história da ONU no programa "Petróleo por Alimentos", em que esteve envolvido o seu próprio filho, Kojo Annan».

Capacetes Azuis: abusos e impunidades

Partindo da asserção de um ex-funcionário da Onu – «Se um capacete azul chega à tua cidade ou aldeia e se oferece para te proteger, foge. Agarra numa arma. A tua vida vale muito menos do que a dele» –, Eric Frattini relembra múltiplos escândalos enredando os “capacetes azuis”. Diz-se que, se em 1988 estas forças da paz das Nações Unidas receberam o Prémio Nobel da Paz, a sua actuação posterior deixou para trás a imagem romântica dos soldados que alimentavam e protegiam as mulheres, os velhos e as crianças.

Referem-se abusos e exploração sexual de mulheres e raparigas no Camboja (1992-1993) ou na Libéria (1993-1997); torturas a prisioneiros na Somália (1992-1995) – «o jornal flamengo Het Laastse Nieuws publicou mesmo fotografias que mostravam um soldado da ONU a urinar sobre o cadáver de um somali»; violações de crianças no Congo (presença desde 1999) e em Moçambique (1992-1994); casos de pederastia na Serra Leoa (presença desde 1998) e no Kosovo (desde 1999); escândalos na Bósnia-Herzegovina (1995-2005) com a prática do mercado negro – tido como «fonte de rendimentos ilícitos para os soldados da ONU» com o qual «estavam a ficar bem ricos e a tornar ricas as máfias locais» –, também da prostituição juntando-se-lhe um rol de insanidades: «pelo menos trinta e dois “capacetes azuis” do Canadá feriram, torturaram e violaram doentes e enfermeiras de um hospital psiquiátrico na Bósnia»; abordam-se «casos de escravatura de mulheres somalis ou bósnias e abandono de civis desarmados às mãos dos seus agressores no Ruanda e Sbrenica», numa lista demasido vasta de condutas atrozes para que possamos ficar indiferentes.

Perante a bizarria e o anómalo, o texto refere que foi pedido por mais de 100 Estados-membros dos 191 que compõem a assembleia-geral da ONU que se rejeitasse a Resolução 1487 do Conselho de Segurança que impedia o Tribunal Internacional de julgar os “capacetes azuis”. Todavia, pode ler-se, «apesar das suas bem intencionadas palavras em que Annan afirmava que a resolução contrariava o espírito da Carta das Nações Unidas, o Conselho de Segurança renovou a 1422 e adoptou a Resolução 1487, como ampliação da anterior e com ela a “autorização de pirataria” para os milhares de “capacetes azuis” espalhados por todo o Mundo».

Um provérbio chinês aconselha: «Antes de iniciar a tarefa de mudar o Mundo, dá três voltas pela tua própria casa». Sendo o Mundo a casa larga de todos, é o dever de cada um participar na arrumação. Não o fazer é deixar a tarefa concentrada só nalguns e legitimar-lhe o poder sobre esse bem que deve ser comum. Este livro mostra-nos o preço e o perigo do comodismo de uma metade da humanidade perante a outra metade.

ONU – História da Corrupção, Eric Frattini, Editorial Campo das Letras, Porto, Setembro de 2006


© Teresa Sá Couto

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

«cem mil cigarros - Os Filmes de Pedro Costa».

«cem mil cigarros – OS FILMES DE PEDRO COSTA» é o próximo lançamento das edições Orfeu Negro. Coordenada por Ricardo Matos Cabo, a monografia tem mais de 300 páginas com textos de 28 críticos, ensaístas, realizadores e artistas de todo o mundo. O lançamento está marcado para 22 de Setembro, terça-feira, na Cinemateca Portuguesa, às 19h30.
Serão também apresentados os lançamentos da Midas Filmes da edição em DVD do primeiro filme de Pedro Costa, O SANGUE, a partir de um novo master digital de alta definição 2K, com restauro digital de imagem e som, e da reedição em DVD de ONDE JAZ O TEU SORRISO? Às 21h30, segue-se uma sessão de O SANGUE na sala Dr. Félix Ribeiro, com a presença do realizador.

O filme será objecto de uma reposição em cópia nova, no dia 24 de Setembro, em exclusivo no cinema UCI El Corte Inglés, em Lisboa, vinte anos depois da sua estreia mundial em Veneza.

As edições em DVD dos dois filmes são edições de coleccionador com várias horas de complementos e estarão à venda a partir do dia 1 de Outubro. O DVD de O SANGUE tem como extras: “Sangue antigo e sangue novo por João Bénard da Costa”, “Órfãos um comentário de Phillipe Azoury”, “Jeanne Balibar canta duas canções um filme de Pedro Costa”, “13 Fotografias de Paulo Nozolino”, “Fotografias de rodagem”, “Filmografia de Pedro Costa”, “Trailers” e “Capítulos”. ONDE JAZ O TEU SORRISO? tem como extras “Danièle Huillet, Jean Marie Straub, Cineastas – filme da colecção cinema de notre temps”, “6 Bagatelas – seis cenas inéditas montadas especialmente para esta edição”, “O Viandante e O Amolador – duas curtas-metragens inéditas de Danièle Huillet e Jean Marie Straub”, “Filmografias Pedro Costa, Danièle Huillet e Jean Marie Straub”.

Em Novembro, a Midas Filmes estreará ainda NE CHANGE RIEN, o último filme do realizador, antestreado na Quinzena dos Realizadores em Cannes. A estreia do filme contará com a presença da actriz Jeanne Balibar.

NE CHANGE RIEN foi também já apresentado na Filmoteca de Madrid, onde foi exibida uma retrospectiva completa do realizador, no Festival de Marselha, na Haus der Kulturen der Welt, em Berlim, e seguem-se apresentações em mais de vinte festivais em todo o mundo, entre os quais o Festival de Nova Iorque e a Tate Modern em Londres, onde em Setembro e Outubro será apresentada uma retrospectiva completa da obra de Costa e uma selecção de filmes que o inspiraram enquanto realizador.
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(conforme nota da Orfeu Negro)